Depois de mais uma noite de trabalho, ela chegou a casa. À sua pequena e acolhedora casa no centro da cidade. Tirou os sapatos, e abriu as janelas. Entrou a brisa da noite, já não tão quente como outrora, mas ainda agradável e doce, abraçou-a e ela inspirou-a como se fosse um perfume de Outono. No seu antigo giros discos meteu a sua amiga Billie a girar… Hum...que prazer. Acendeu as velas que decoravam a pacata e confortável salinha. Na cozinha abriu uma garrafa, encheu o seu copo. Foi aconchegar-se no seu recanto, o sofá redondo, que acompanhava a redonda janela com vista para o parque. Aninhou-se e acendeu o cigarro… Bebericava suaves tragos do bom vinho que gentilmente lhe aquecia o corpo e alma. E levemente ia fumando o seu vicio... Escutava com saudade o som antigo que gemia do gira discos… Pobre actriz, daquele teatro de fundo de rua escura onde apenas entre quem o sabe, encontrava no seu sofá, já coçado do tempo, o maior prazer do dia. Fazer amor com a sua mente…
Eentre o fumo do cigarro, a luz tremula das velas reflectida no vermelhão do vinho espelhava no vidro a sua face, pálida, mas feliz…
Chegada a casa depois de uma agradável caminhada pelo jardim demasiado povoado de cachorros a tentar fazer as suas necessidades, era “hora de jantar”. Sem muita paciência, aquece-se uma sopa, e prepara-se um simples hambúrguer.
Mas entretanto, algo surge.
Uns bocadinhos de manga, madurinha, mesmo no ponto, umas natas cremosas, salpicos de sal e pimenta…e uma pitada de caril! Deixa-se um bocadinho a cozinhar, o doce aroma da manga com o quente do caril começam a pairar pela cozinha.. hum… Pronto, na mesa está já o prato demasiado grande para o pequeno pedaço de carne acompanhado de um montinho de brócolos. Com todo o carinho que é necessário, coloca-se o molho por cima de metade do hambúrguer, e deixa-se que encha o resto do prato, sem interferir com a pureza do brócolo. Mais umas amarelas pitadas de caril, e C'est fini! Saboreie cada dentadinha como se fosse a última. E quando foi a última, ficou a apetecer mais… do MEU molho de manga.
O meu coração parou, mas os meus olhos estavam ainda abertos. Um corrupio de pânico serpenteava à minha volta, percebia porquê, não era de esperar. Mas em mim, ou no que outrora o era, apenas calma. Uma profunda e arrebatadora calma. E nas entranhas de toda esta calma, começava a surgir algo diferente… Curiosidade. Agora que chegara ao fim desta vida, como a conhecia, o que acontecia? Passavam já alguns minutos desde que senti o coração parar, e com ele tudo o resto, e não havia ainda paraísos, nem infernos, nem nada. Continuava o meu corpo no chão da sala, naquela bela carpete vinda da Turquia, na viagem do nosso aniversário.. E nada mais acontecia. Vi os médicos chegar, a tentativa de reanimar o que já não existia. "Nada a fazer." E depois, a escuridão. Fecharam-me os olhos, e então, a verdade... O nada.
Depois de um longo dia de trabalho era necessário aproveitar aquela fantástica noite de verão.
Chegou a casa e como sempre, tirou as sandálias e saltou para o sofá. Fazia já parte da sua vida, o velho sofá. Estava já u pouco atrasada, mas saboreou ainda mais um pouco a doce relação que tinha com o seu sofá. Depois lá se arrastou para um duche, breve, mas agradável. Era já hora de estar no restaurante mas como aniversariante, tinha desculpa. Levou assim algum tempo a arranjar-se, contemplou o seu o seu esbelto e bronzeado corpo ao espelho., pensando com o quê o adornar. Vestiu o leve e elegante vestido comprido, cheio de flores quentes, que tão bem lhe caia na pela morena e perfumada. Mais uns retoques, e saiu de casa…
Quando chegou já todos estavam sentados à mesa. Os amigos de infância, as colegas de vida recente, e o amor da sua vida. Ao lado do qual estava guardado o seu lugar. Sorridente, cumprimentou-os a todos, um por um, com um sentido beijo e um apertado abraço. Reservando para o ultimo, um beijo mais que sentido. Começaram a jantar, por entre os vapores da comida, brilhavam sorrisos, conversas e brindes
Findado o jantar, era já longe na noite. Sendo o dia seguinte dia de trabalho, cada qual se dirigiu para sua casa, após longas e apaixonadas despedias.
Mas para ela era ainda cedo. Abraçou-o e caminharam mais um pouco pela rua quente e movimentada. Havia ainda tempo para mais uns dedos de conversa, uns tragos de alegria.
Ficaram por momentos perdidos no tempo, mas o cansaço acusa, e o regresso a casa aproximava-os do táxi.
Entraram, ela aninhou-se no seu ombro, enlaçando a mão na mão. Mas rapidamente chegaram ao destino.
Abraçados subiram a pequena ruela que os separava de casa. A brisa envolvia os seus cabelos espalhando pelo ar o doce e suave aroma, ele aproximava-se, inspirava o doce ser que era ela, e com ternura envolvi a sua frágil e delicada cintura. Eles nem se apercebiam, mas na sua mente, estava já a fazer amor.
Mas, subitamente alguém subia a rua a correr, um passo nervoso e apressado. Viraram-se para ver quem seria, mas antes que o pudessem confrontar, disparou dois tiros. Pum, Pum.
Caíram os dois prostrados no chão. Primeiro ele, ela logo de seguida.